sexta-feira, março 26, 2010

Sobre a brevidade da vida


David Bailly, Auto-retrato com símbolos de Vanitas, 1651.

"1. Pode haver alguma coisa mais tola, me diga, que a maneira de viver desses homens que deixam a prudência de lado? Vivem ocupados para poder viver melhor: acumulam a vida, dissipando-a. Fazem seus projetos para longo tempo, porém esse adiamento é prejudicial para a vida, já que nos tira o dia-a-dia, rouba o presente comprometendo o futuro. A expectativa é o maior impedimento para viver: leva-nos para o amanhã e faz com que se perca o presente. Daquilo que depende do destino, abres mão; do que depende de ti, deixas fugir. Para onde te voltas, para o que te dedicas? Todas as coisas que virão jazem na incerteza: vive daqui para diante.
2. Eis que o maior profeta [Virgílio], como que instigado por uma boca divina, para saudar-te canta os versos: 'O melhor da vida é o que foge primeiro aos miseráveis mortais'. 'Por que te demoras', ele pergunta, 'por que tardas?' Se não tomas a iniciativa, o dia foge e, mesmo que o tenhas ocupado, ele fugirá. Assim, é preciso combater a celeridade do tempo usando a velocidade, tal como de uma rápida corrente, que não fluirá para sempre, se deve beber depressa.
3. O poeta, que esplendidamente censura tua cogitação infinita, não fala de melhor idade, mas melhor dia. Estendes, com a tua avidez, aquilo que parece lento e seguro do tempo, mas que te foge de tal maneira em uma longa série de anos e meses? Ele te fala de um dia, deste próprio dia que foge.
4. Portanto, não há dúvida que o melhor dia é o primeiro que foge aos miseráveis mortais, isto é, aos ocupados. A velhice aflige tanto os seus espíritos infantis, que chegam a ela despreparados e desarmados. Na verdade, nada foi previsto: subitamente e sem estarem prontos chegam a ela, não percebendo que ficava mais próxima todos os dias.
5. Do mesmo modo que uma conversa, uma leitura ou qualquer reflexão maior desvia a atenção do viajante, que, de repente, se vê chegando ao seu destino sem perceber que dele se aproximava, assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que, dormindo ou acordados, fazemos com um imenso passo e que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim".

Sêneca (4 a.C.? - 65 d.C.). Sobre a brevidade da vida, Porto Alegre, L&PM, 2006, pp. 46-48.

2 comentários:

Claudia disse...

Como conciliar a filosofia de Sêneca com o nosso cotidiano social embrutecido, vulgar e ganancioso?

Hei de encontrar a resposta!

No dia seguinte ao nosso último encontro, corri às bancas paulistanas.

Abraços

Alexia Bretas disse...

Correndo o risco de atribuir à filosofia uma responsabilidade que talvez(?) não seja a dela, eu diria que esse é o grande desafio dos "tempos modernos". Se descobrir uma solução, por favor, me diga!

Beijos...