domingo, fevereiro 24, 2013

"Entre os atributos mais surpreendentes da alma humana”, diz Lotze, “está, ao lado de tanto egoísmo individual, uma ausência geral de inveja de cada presente com relação a seu futuro”. Essa reflexão conduz-nos a pensar que nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência. A felicidade capaz de suscitar nossa inveja está toda, inteira, no ar que já respiramos, nos homens com os quais poderíamos ter conversado, nas mulheres que poderíamos ter possuído. Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação. O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua. O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera. Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente". Walter BENJAMIN, Teses sobre o conceito de história.

domingo, dezembro 30, 2012

A Roda da Moda, 1844

Grandville, Um outro mundo, 1844.

sexta-feira, novembro 23, 2012

sábado, julho 28, 2012

"Brincar outra vez"

"Enfim, esse estudo deveria investigar a grande lei que, além de todas as regras e ritmos individuais, rege o mundo da brincadeira em sua totalidade: a lei da repetição. Sabemos que a repetição é para a criança a essência da brincadeira, que nada lhe dá tanto prazer como "brincar outra vez". A obscura compulsão de repetição não é menos violenta nem menos astuta na brincadeira que no sexo. Não é por acaso que Freud acreditava ter descoberto nesse impulso um 'além do princípio do prazer'. Com efeito, toda experiência profunda deseja, insaciavelmente, até o fim de todas as coisas, repetição e retorno, restauração de uma situação original, que foi seu ponto de partida. 'Tudo seria perfeito, se pudéssemos fazer as coisas duas vezes': a criança age segundo essas palavras de Goethe. Somente, ela não quer fazer a mesma coisas apenas duas vezes, mas sempre de novo, cem e mil vezes. Não se trata apenas de assenhorar-se de experiências terríveis e primordiais pelo amortecimento gradual, pela invocação maliciosa, pela paródia; trata-se também de saborear repetidamente, do modo mais intenso, as mesmas vitórias e triunfos. O adulto alivia seu coração do medo e goza duplamente sua felicidade quando narra sua experiência. A criança recria essa experiência, começa sempre tudo de novo, desde o início. Talvez seja esta a raiz mais profundo do duplo sentido da palavra alemã Spielen (brincar e representar): repetir o mesmo seria seu elemento comum. A essência da representação, como da brincadeira , não é um 'fazer como se', mas 'fazer sempre de novo', é a transformação em hábito de uma experiência devastadora". BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas, vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 252-253.

"Uma vez só é nada"

"Isso possui, no erótico, as mais surpreendentes evidências. Enquanto um homem corteja uma mulher com a dúvida constante sobre seu assentimento, a satisfação só pode vir acompanhada dessa dúvida, isto é, como salvação, decisão. Contudo, mal ela se realiza nessa forma, num abrir e fechar de olhos pode tomar seu lugar um anseio novo e insuportável pela satisfação pura e simples. A primeira satisfação se consome na memória, mais ou menos na decisão, portanto, em sua função oposta à dúvida; ela se torna abstrata. Assim, esta única vez pode se tornar nula, comparada com a realização pura e absoluta. Por outro lado, porém, pode se desvalorizar também eroticamente como pura e absoluta. Por exemplo, quando uma aventura banal se nos afigura na memória muito próxima, brutal e repentinamente, e anulamos esta primeira vez, chamando-a de vez nenhuma, porque buscamos as linhas de fuga da expectativa para saber como a mulher se anula diante de nós como seu ponto de interseção. No Don Juan, o felizardo do amor, o segredo é como ele, com a rapidez do relâmpago conduz, em todas as suas aventuras, a decisão e a corte mais gentil, ao mesmo tempo, recupera, no êxtase, a expectativa e antecipa, na corte, a decisão. Esse 'de uma vez por todas' do prazer, esse entrelaçar dos tempos só pode ser expresso musicalmente. Don Juan exige música como lente ustória do amor". BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas, Vol. 2. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 208.

quarta-feira, julho 11, 2012

MarxterCard

MasterCard com a efígie de Karl Marx, criado por banco alemão; moradores de Chemnitz escolheram a imagem.

quarta-feira, junho 06, 2012

Possibilidades

"Prefiro o cinema. Prefiro os gatos. Prefiro os carvalhos sobre o Warta. Prefiro Dickens a Dostoiévski. Prefiro-me gostando das pessoas do que amando a humanidade. Prefiro ter agulha e linha à mão. Prefiro a cor verde. Prefiro não achar que a razão é culpada de tudo. Prefiro as exceções. Prefiro sair mais cedo. Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos. Prefiro as velhas ilustrações ilustradas, Prefiro o ridículo de escrever poemas ao ridículo de não escrevê-los. Prefiro, no amor, os aniversários não marcados, para celebrá-los todos os dias. Prefiro os moralistas que nada me prometem. Prefiro a bondade astuta à confiante demais. Prefiro a terra à paisana. Prefiro os países conquistados aos conquistadores. Prefiro guardar certa reserva. Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem. Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais. Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas. Prefiro os cães sem a cauda cortada. Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros. Prefiro as gavetas. Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui e muitas coisas também não mencionadas. Prefiro os zeros soltos do que postos em fila para formar cifras. Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas. Prefiro bater na madeira. Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando. Prefiro ponderar a própria possibilidade do ser ter a sua razão". Wislawa Szymborska. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.