quinta-feira, maio 27, 2010

A Esfinge de Salvador Dalí


Salvador Dalí, Shirley Temple, o mais jovem monstro sagrado do cinema de sua época, 1939.

terça-feira, maio 04, 2010

Ao Idioma Alemão

"Meu destino é a língua castelhana,
O bronze de Francisco de Quevedo,
Mas pela lenta noite caminhada
Exaltam-me outras músicas mais íntimas.
Umas me foram dadas pelo sangue --
Oh, voz de Shakespeare e da Escritura --,
E outras pelo acaso dadivoso,
Mas a ti, doce língua da Alemanha,
Solitário elegi e procurei.
Por entre vigílias e gramáticas,
Em meio à selva das declinações,
Do dicionário, que jamais atina
Com o matiz preciso, me aproximei.
Minhas noites são repletas de Virgílio,
Disse uma vez; e diria também
de Hölderlin e de Angelus Silesius.
Heine me deu seus altos rouxinóis;
Goethe, a ventura de um amor tardio,
A um só tempo indulgente e mercenário;
Keller, a rosa que certa mão deixa
Na mão daquela morto que a amava
E que não vai saber se é branca ou rubra.
Tu, língua da Alemanha, és tua obra
Capital: esse amor entrelaçado
Das palavras compostas, as vogais
Abertas, e esses sons que condescendem
Com o estudioso hexâmetro do grego,
Com teu rumor de selvas e de noites.
Foste minha algum dia. Hoje, no linde
De meus anos cansados, te diviso
Longíqua como a álgebra e a lua".

Jorge Luis Borges,
"Ao idioma alemão", O ouro dos tigres
in: Obras Completas, Vol. 2.
São Paulo: Globo, 1999, p. 529.

segunda-feira, maio 03, 2010

domingo, abril 18, 2010

O Pensamento alimenta a Experiência


Andy Warhol, Beethoven, 1986.

“Se alguém não entende o aspecto puramente musical de uma sinfonia de Beethoven, compreende-a tão pouco como alguém que nela não percebe o eco da Revolução Francesa; e o modo como os dois momentos estão ligados no fenômeno conta-se entre os temas tão pedantes como inevitáveis da estética filosófica. A experiência só não basta, é preciso que seja alimentada pelo pensamento”.

Theodor Adorno. Experiência e criação artística: Paralipômenos à Teoria Estética. Tradução: Artur Mourão. Lisboa: Ed. 70, p. 145.

sábado, abril 17, 2010

O Matrimônio do Céu e do Inferno


William Blake, O matrimônio do céu e do inferno, 1790.

sexta-feira, abril 16, 2010

Dadá contra Weimar, 1919


Raoul Hausmann, Cabeça Mecânica
(O espírito de nosso tempo), 1920.

“Eu anuncio o mundo dadaísta. Eu rio da ciência da cultura, estes fusíveis de segurança de uma sociedade condenada à morte. O que me interessa saber como era Martinho Lutero?

Eu o imagino um homenzinho barrigudo. Ele era como o Encarregado do povo Ebert. Para que precisamos ler as falas de Buda – e melhor termos uma falsa imagem de excursos filosóficos. Ou saber que existiam no Cambriano libélulas gigantescas em cuja honra a pressão atmosférica era maior do que hoje. Ou que 227 bilhões de átomos fazemos uma molécula do tamanho de um décimo de milímetro cúbico. Mas ainda menos importantes do que estas incontrolabilidades são para mim os escritores sérios. Porque é melhor ser comerciante do que ser escritor.

O comerciante engana abertamente e só aos outros: isto está justificado no Código Civil. O escritor engana-se a si próprio quando fala por todos e está condenado por seu isolamento do mundo super-real. (...)

Eu não sou somente contra o espírito de Potsdam – eu sou antes de tudo contra Weimar. Consequências ainda mais lastimáveis que o velho Fritz acarretam Goethe e Schiller – o governo Ebert-Scheidemann foi uma consequência natural da inconsistência tola e ávida do classicismo poético. Este classicismo é uma farda, a métrica capacidade de vestir coisas que não tocam no viver”.

HAUSMANN, Raoul. "Protesto contra a concepção de vida weimariana", in: Der Einzige 14, 1919 apud BAITELLO JÚNIOR, Norval. Dadá-Berlim: Des/Montagem. São Paulo: Annablume, 1993, pp. 63-65.

quinta-feira, abril 15, 2010

Despertar é preciso

"Na primeira noite, eles aproximam-se
e colhem uma flor em nosso jardim,
e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores, matam o nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa, rouba-nos
a lua e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada".

Vladimir Maiakóvski, "Despertar é preciso".

segunda-feira, abril 12, 2010

sexta-feira, abril 09, 2010

O Tarot Universal de Dalí


Clique na imagem para ampliar.

quinta-feira, abril 08, 2010

Arte como Magia / Magia como Arte


John Anster Fitzgerald, O concerto.

"Magia é = arte de usar arbitrariamente o mundo sensível".
Novalis. Pólen. São Paulo, Iluminuras, 2001, p. 143.

sexta-feira, abril 02, 2010

Ecce Homo, Friedrich Nietzsche, 1888.

"Não sou nenhum bicho-papão, nenhum monstro moral -- sou até mesmo uma natureza oposta à espécie de homem que até agora se venerou como virtuosa. Cá entre nós, parece-me que justamente isso forma parte de meu orgulho. Sou um discípulo do filósofo Dionísio, preferiria antes ser um sátiro a ser um santo. Mas leia-se este escrito. Talvez eu o tenha conseguido, talvez não tenha ele outro sentido senão expressar essa oposição de maneira feliz e afável. A última coisa que eu prometeria seria "melhorar" a humanidade. Eu não construo novos ídolos; os velhos que aprendem o que significa ter pés de barro. Derrubar ídolos (minha palavra para ideais) -- isto sim é meu ofício. A realidade foi despojada de seu valor, seu sentido, sua veracidade, na medida em que se forjou um mundo ideal... O "mundo verdadeiro" e o "mundo aparente" -- leia-se: o mundo forjado e a realidade... A mentira do ideal foi até agora a maldição sobre a realidade, através dela a humanidade tornou-se mendaz e falsa até seus instintos mais básicos -- a ponto de adorar os valores inversos aos únicos que lhe garantiriam o florescimento, o futuro, o elevado direito ao futuro."
Friedrich Nietzche. Ecce Homo: como alguém se torna o que é. (São Paulo, Companhia das Letras, 2009, pp. 15-6).

terça-feira, março 30, 2010

domingo, março 28, 2010

A Doutrina das Cores de Goethe


J. W. Goethe, Estudo para a doutrina das cores, 1809.

sexta-feira, março 26, 2010

Sobre a brevidade da vida


David Bailly, Auto-retrato com símbolos de Vanitas, 1651.

"1. Pode haver alguma coisa mais tola, me diga, que a maneira de viver desses homens que deixam a prudência de lado? Vivem ocupados para poder viver melhor: acumulam a vida, dissipando-a. Fazem seus projetos para longo tempo, porém esse adiamento é prejudicial para a vida, já que nos tira o dia-a-dia, rouba o presente comprometendo o futuro. A expectativa é o maior impedimento para viver: leva-nos para o amanhã e faz com que se perca o presente. Daquilo que depende do destino, abres mão; do que depende de ti, deixas fugir. Para onde te voltas, para o que te dedicas? Todas as coisas que virão jazem na incerteza: vive daqui para diante.
2. Eis que o maior profeta [Virgílio], como que instigado por uma boca divina, para saudar-te canta os versos: 'O melhor da vida é o que foge primeiro aos miseráveis mortais'. 'Por que te demoras', ele pergunta, 'por que tardas?' Se não tomas a iniciativa, o dia foge e, mesmo que o tenhas ocupado, ele fugirá. Assim, é preciso combater a celeridade do tempo usando a velocidade, tal como de uma rápida corrente, que não fluirá para sempre, se deve beber depressa.
3. O poeta, que esplendidamente censura tua cogitação infinita, não fala de melhor idade, mas melhor dia. Estendes, com a tua avidez, aquilo que parece lento e seguro do tempo, mas que te foge de tal maneira em uma longa série de anos e meses? Ele te fala de um dia, deste próprio dia que foge.
4. Portanto, não há dúvida que o melhor dia é o primeiro que foge aos miseráveis mortais, isto é, aos ocupados. A velhice aflige tanto os seus espíritos infantis, que chegam a ela despreparados e desarmados. Na verdade, nada foi previsto: subitamente e sem estarem prontos chegam a ela, não percebendo que ficava mais próxima todos os dias.
5. Do mesmo modo que uma conversa, uma leitura ou qualquer reflexão maior desvia a atenção do viajante, que, de repente, se vê chegando ao seu destino sem perceber que dele se aproximava, assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que, dormindo ou acordados, fazemos com um imenso passo e que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim".

Sêneca (4 a.C.? - 65 d.C.). Sobre a brevidade da vida, Porto Alegre, L&PM, 2006, pp. 46-48.

quinta-feira, março 18, 2010

Goethe sobre Shakespeare


Henry Fuseli, Titania e Bottom, c. 1790.

“Não me lembro de nenhum outro livro, ser humano, nem de qualquer acontecimento da vida que tanta impressão me tenha causado quanto essas peças magníficas (...). Parecem obra de um gênio celestial, que se aproxima dos homens para lhes dar a conhecer a si mesmos da maneira mais natural. Não são composições poéticas! Acreditamos encontrar-nos diante dos colossais livros do destino em que, uma vez abertos, sibila o vento impetuoso da mais agitada vida, e com uma rapidez e violência vai virando suas páginas”.

Johann Wolfgang von Goethe. Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister. São Paulo: Ed. 34, 2006.

quarta-feira, março 17, 2010

Uma alegoria da melancolia, 1528


Lucas Cranach, Uma alegoria da melancolia, 1528.

terça-feira, março 16, 2010

Sonhos hieroglíficos, sonhos divinos

Para Tânia


William Blake, O sonho de Jacó, c. 1800-3.

“Os sonhos do homem são de duas classes. Uns cheios de vida cotidiana e suas preocupações, seus desejos, seus vícios, combinam-se de uma maneira mais ou menos estranha com os objetos percebidos durante o dia que indiscretamente se fixaram sobre a vasta tela da memória. Eis o sonho natural; é o próprio homem. Mas e a outra espécie de sonho? O sonho absurdo, imprevisto, sem relação nem conexão com o caráter, a vida e as paixões do adormecido? Este sonho que chamarei de hieroglífico, representa evidentemente o lado sobrenatural da vida, e é justamente por ser absurdo que os antigos julgavam-no divino”.

Charles Baudelaire. Paraísos artificiais. Porto Alegre: L&PM, 1998.

segunda-feira, março 08, 2010

O Surrealista-Alquimista


Victor Brauner, O Surrealista, 1947.

“Os esforços dos surrealistas apresentam uma notável analogia, quanto ao fim a alcançar, com as pesquisas alquímicas: a pedra filosofal nada mais é que aquilo que deveria permitir à imaginação humana tomar de todas as coisas uma vingança fulgurante, e eis-nos de novo, depois de séculos de domesticação do espírito e louca resignação, tentando novamente libertar a imaginação pelo longo, imenso, racional desregramento de todos os sentidos”.

André Breton, “Segundo Manifesto do Surrealismo”, in: Manifestos do Surrealismo. Rio de Janeiro: Nau, 2001, p. 207.