"Uma pessoa que ama é assiduamente e sem interrupções ocupada pela imagem da pessoa amada".
Stendhal. Do amor.
(Porto Alegre, L&PM, 2007, p. 261).
Mostrando postagens com marcador citações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador citações. Mostrar todas as postagens
sábado, maio 28, 2011
domingo, maio 22, 2011
Fútil metafisicamente
“Toda a vida fui fútil metafisicamente, sério a brincar”.
Fernando Pessoa. Livro do Desassossego.
(São Paulo, Companhia de Bolso, 2006, T. 135, p. 154).
Fernando Pessoa. Livro do Desassossego.
(São Paulo, Companhia de Bolso, 2006, T. 135, p. 154).
sexta-feira, maio 20, 2011
Porco-Espinho
"Um fragmento tem de ser, igual a uma pequena obra de arte, totalmente separado do mundo circundante e perfeito em si mesmo como um porco-espinho".
Friedrich Schlegel.
(Fragmento de Athenaeum, n. 206)
"O porco-espinho -- um ideal".
Friedrich von Hardenberg Novalis.
(Anotação à margem do fragmento supra).
Friedrich Schlegel.
(Fragmento de Athenaeum, n. 206)
"O porco-espinho -- um ideal".
Friedrich von Hardenberg Novalis.
(Anotação à margem do fragmento supra).
segunda-feira, março 28, 2011
Amar, por Carlos Drummond de Andrade
"Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amar sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma eterna ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita".
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amar sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma eterna ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita".
domingo, março 27, 2011
Lê!
Segundo a tradição, naquele ano de 610,
o arcanjo Gabriel apareceu diante de Maomé
e disse: "Lê!"
o arcanjo Gabriel apareceu diante de Maomé
e disse: "Lê!"
sexta-feira, março 25, 2011
Viver com qualidade, por Sêneca
"O que importa não é viver muito, mas viver com qualidade. Com efeito, viver muito tempo quem decide é o destino. Viver plenamente, o teu espírito. A vida é longa se for vivida com plenitude. Assim, ela está plena quando a alma tomou posse do bem que lhe é próprio e não depende senão de seu poder".
SÊNECA (ca. 4 a.C-ca. 65 d.C). "Da qualidade da vida comparada com a sua duração", in: Aprendendo a viver. Porto Alegre, LP&M, 2009, p. 90.
SÊNECA (ca. 4 a.C-ca. 65 d.C). "Da qualidade da vida comparada com a sua duração", in: Aprendendo a viver. Porto Alegre, LP&M, 2009, p. 90.
segunda-feira, dezembro 06, 2010
História de um Amor
"Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher. À noite eu vejo, às vezes, a silhueta de um homem que, numa estrada vazia e numa paisagem deserta, anda atrás de um carro fúnebre. Eu sou esse homem. É você que esse carro leva. Não quero assistir à sua cremação; nem quero receber a urna com as suas cinzas. 'Die Welt ist leer, Ich will nicht leben mehr' [o mundo está vazio, não quero mais viver], e desperto. Eu vigio a sua respiração, minha mão toca você. Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro. Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos".
André Gorz, Carta à D.: História de um amor
(São Paulo: Annablume; Cosac Naify, 2008, p. 70-71)
André Gorz, Carta à D.: História de um amor
(São Paulo: Annablume; Cosac Naify, 2008, p. 70-71)
domingo, novembro 28, 2010
A Descoberta do Diálogo
"Uns quinhentos anos antes da era cristã aconteceu na Magna Grécia a melhor coisa registrada na história universal: a descoberta do diálogo. A fé, a certeza, os dogmas, os anátemas, as preces, as proibições, as ordens, os tabus, as tiranias, as guerras e as glórias assediavam o orbe; alguns gregos contraíram, nunca saberemos como, o singular costume de conversar. Duvidaram, persuadiram, discordaram, mudaram de opinião, adiaram. Quiçá foram ajudados por uma mitologia, que era, como o Shinto, um conjunto de fábulas imprecisas e de cosmogonias variáveis. Essas dispersas conjecturas foram a primeira raíz do que hoje chamamos, não sem pompa, de metafísica. Sem esses poucos gregos conversadores, a cultura ocidental é inconcebível".
Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari. Sobre a amizade e outros diálogos.
(São Paulo, Hedra, 2009, p. 21).
Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari. Sobre a amizade e outros diálogos.
(São Paulo, Hedra, 2009, p. 21).
quinta-feira, novembro 25, 2010
O Livro do Chá, por Kakuzo Okakura
"O chá é uma obra de arte e necessita de uma mão magistral para revelar suas qualidades mais nobres. Existem chás bons e ruins, assim como há pinturas boas e medíocres -- estas geralmente em maior número. Não há uma receita única para se preparar o chá perfeito, da mesma maneira que não há regras para se produzir um Ticiano ou um Sesson. Cada preparado das folhas tem sua individualidade, sua afinidade específica com a água e o calor, memórias hereditárias a relembrar, e seu próprio método de contar uma história. O verdadeiramente belo deve estar sempre nele. Quanto não sofremos pela constante falha da sociedade em reconhecer esta simples e fundamental lei de arte e vida. Lichihlai, um poeta da dinastia Sung, observou com tristeza que havia três coisas extremamente deploráveis no mundo: estragar jovens promissores em decorrência de uma educação incorreta, degradar pinturas de qualidade pela admiração vulgar e desperdiçar totalmente um bom chá por manipulação incompetente".
Kakuzo Okakura. O livro do chá.
(São Paulo, Estação Liberdade, 2008, p. 41-42).
Kakuzo Okakura. O livro do chá.
(São Paulo, Estação Liberdade, 2008, p. 41-42).
sábado, novembro 20, 2010
Loucos e Santos, por Oscar Wilde
"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer,
mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças
e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto;
e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril".
****
"I choose my friends not by their skin or other archetype, but by the pupil.
They have to have questioning shine and unsettled tone.
I'm not interested in the good spirits or the ones with bad habits.
I'll stick with the ones that are made of me being crazy and blessed.
From them, I don't want an answer, I want to be reviewed.
I want them to bring me doubts and fears and to tolerate the worst of me.
But that only being crazy.
I want saints, so they dount doubt differences and ask for forgiveness for injustices.
I choose my friends for their clean face and their soul exposed.
I don't just want a man or a skirt, I also want his greatest happiness.
A friend that doesn't laugh together doesn't know how to cry together.
All my friends are like that, half foolish, half serious.
I don't want forseen laughter or cries full of pity.
I want serious friends, those that make reality their fountain of knowledge, but that fight to keep fantasy alive.
I don't want adult or boring friends.
I want half kids and half elderly.
Kids, so they don't forget the value of the wind blowing on their faces and elderly people so they're never in a hurry.
I have friends to know who I am.
Then seeing them as clowns and serious, crazy and saints, young and old, I will never forget that 'normalcy' is a steril and imbecil illusion".
Oscar Wilde. The Complete Works of Oscar Wilde.
(London, Harper Perennial Modern Classics Edition, 2008).
mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças
e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto;
e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril".
****
"I choose my friends not by their skin or other archetype, but by the pupil.
They have to have questioning shine and unsettled tone.
I'm not interested in the good spirits or the ones with bad habits.
I'll stick with the ones that are made of me being crazy and blessed.
From them, I don't want an answer, I want to be reviewed.
I want them to bring me doubts and fears and to tolerate the worst of me.
But that only being crazy.
I want saints, so they dount doubt differences and ask for forgiveness for injustices.
I choose my friends for their clean face and their soul exposed.
I don't just want a man or a skirt, I also want his greatest happiness.
A friend that doesn't laugh together doesn't know how to cry together.
All my friends are like that, half foolish, half serious.
I don't want forseen laughter or cries full of pity.
I want serious friends, those that make reality their fountain of knowledge, but that fight to keep fantasy alive.
I don't want adult or boring friends.
I want half kids and half elderly.
Kids, so they don't forget the value of the wind blowing on their faces and elderly people so they're never in a hurry.
I have friends to know who I am.
Then seeing them as clowns and serious, crazy and saints, young and old, I will never forget that 'normalcy' is a steril and imbecil illusion".
Oscar Wilde. The Complete Works of Oscar Wilde.
(London, Harper Perennial Modern Classics Edition, 2008).
segunda-feira, julho 19, 2010
O Eterno e o Efêmero
"O eterno, de qualquer modo, é antes
um drapeado de vestido do que uma ideia".
Walter Benjamin, Arquivo "B", Passagens.
São Paulo; Belo Horizonte: Imprensa Oficial
do Estado de São Paulo; Ed. UFMG,
p. 107 [B 3,6].
um drapeado de vestido do que uma ideia".
Walter Benjamin, Arquivo "B", Passagens.
São Paulo; Belo Horizonte: Imprensa Oficial
do Estado de São Paulo; Ed. UFMG,
p. 107 [B 3,6].
sexta-feira, abril 16, 2010
Dadá contra Weimar, 1919

Raoul Hausmann, Cabeça Mecânica
(O espírito de nosso tempo), 1920.
“Eu anuncio o mundo dadaísta. Eu rio da ciência da cultura, estes fusíveis de segurança de uma sociedade condenada à morte. O que me interessa saber como era Martinho Lutero?
Eu o imagino um homenzinho barrigudo. Ele era como o Encarregado do povo Ebert. Para que precisamos ler as falas de Buda – e melhor termos uma falsa imagem de excursos filosóficos. Ou saber que existiam no Cambriano libélulas gigantescas em cuja honra a pressão atmosférica era maior do que hoje. Ou que 227 bilhões de átomos fazemos uma molécula do tamanho de um décimo de milímetro cúbico. Mas ainda menos importantes do que estas incontrolabilidades são para mim os escritores sérios. Porque é melhor ser comerciante do que ser escritor.
O comerciante engana abertamente e só aos outros: isto está justificado no Código Civil. O escritor engana-se a si próprio quando fala por todos e está condenado por seu isolamento do mundo super-real. (...)
Eu não sou somente contra o espírito de Potsdam – eu sou antes de tudo contra Weimar. Consequências ainda mais lastimáveis que o velho Fritz acarretam Goethe e Schiller – o governo Ebert-Scheidemann foi uma consequência natural da inconsistência tola e ávida do classicismo poético. Este classicismo é uma farda, a métrica capacidade de vestir coisas que não tocam no viver”.
HAUSMANN, Raoul. "Protesto contra a concepção de vida weimariana", in: Der Einzige 14, 1919 apud BAITELLO JÚNIOR, Norval. Dadá-Berlim: Des/Montagem. São Paulo: Annablume, 1993, pp. 63-65.
quinta-feira, abril 15, 2010
Despertar é preciso
"Na primeira noite, eles aproximam-se
e colhem uma flor em nosso jardim,
e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores, matam o nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa, rouba-nos
a lua e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada".
Vladimir Maiakóvski, "Despertar é preciso".
e colhem uma flor em nosso jardim,
e não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores, matam o nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa, rouba-nos
a lua e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada".
Vladimir Maiakóvski, "Despertar é preciso".
quinta-feira, abril 08, 2010
Arte como Magia / Magia como Arte
sexta-feira, março 26, 2010
Sobre a brevidade da vida

David Bailly, Auto-retrato com símbolos de Vanitas, 1651.
"1. Pode haver alguma coisa mais tola, me diga, que a maneira de viver desses homens que deixam a prudência de lado? Vivem ocupados para poder viver melhor: acumulam a vida, dissipando-a. Fazem seus projetos para longo tempo, porém esse adiamento é prejudicial para a vida, já que nos tira o dia-a-dia, rouba o presente comprometendo o futuro. A expectativa é o maior impedimento para viver: leva-nos para o amanhã e faz com que se perca o presente. Daquilo que depende do destino, abres mão; do que depende de ti, deixas fugir. Para onde te voltas, para o que te dedicas? Todas as coisas que virão jazem na incerteza: vive daqui para diante.
2. Eis que o maior profeta [Virgílio], como que instigado por uma boca divina, para saudar-te canta os versos: 'O melhor da vida é o que foge primeiro aos miseráveis mortais'. 'Por que te demoras', ele pergunta, 'por que tardas?' Se não tomas a iniciativa, o dia foge e, mesmo que o tenhas ocupado, ele fugirá. Assim, é preciso combater a celeridade do tempo usando a velocidade, tal como de uma rápida corrente, que não fluirá para sempre, se deve beber depressa.
3. O poeta, que esplendidamente censura tua cogitação infinita, não fala de melhor idade, mas melhor dia. Estendes, com a tua avidez, aquilo que parece lento e seguro do tempo, mas que te foge de tal maneira em uma longa série de anos e meses? Ele te fala de um dia, deste próprio dia que foge.
4. Portanto, não há dúvida que o melhor dia é o primeiro que foge aos miseráveis mortais, isto é, aos ocupados. A velhice aflige tanto os seus espíritos infantis, que chegam a ela despreparados e desarmados. Na verdade, nada foi previsto: subitamente e sem estarem prontos chegam a ela, não percebendo que ficava mais próxima todos os dias.
5. Do mesmo modo que uma conversa, uma leitura ou qualquer reflexão maior desvia a atenção do viajante, que, de repente, se vê chegando ao seu destino sem perceber que dele se aproximava, assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que, dormindo ou acordados, fazemos com um imenso passo e que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim".
Sêneca (4 a.C.? - 65 d.C.). Sobre a brevidade da vida, Porto Alegre, L&PM, 2006, pp. 46-48.
quinta-feira, dezembro 17, 2009
Sonho como Criação Dramática
Se o fato de sonhar fosse uma espécie de criação dramática, então aconteceria que o sonho é o mais antigo dos gêneros literários, inclusive anterior à humanidade, porque, como lembra um poeta latino, os animais também sonham. E viria a ser um fato de índole dramática, como uma peça na qual somos o autor, o ator, e também o edifício, o teatro. Ou seja, à noite, todos somos, de alguma maneira, dramaturgos.
Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari. Sobre os sonhos e outros diálogos. São Paulo, Hedra, 2009.
Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari. Sobre os sonhos e outros diálogos. São Paulo, Hedra, 2009.
sexta-feira, novembro 06, 2009
O Grito Expressionista

Edvard Munch, O grito, 1893.
"O homem grita das profundezas de sua alma, a época toda se transforma num grito isolado, perfurante. A arte também grita, dentro da profunda escuridão, grita por socorro, grita pelo espírito. Isso é expressionismo."
Hermann Bahn, Expressionismus (1914-1916), in: R. S. Furness. Expressionismo. São Paulo: Perspectiva, 1990.
segunda-feira, julho 06, 2009
Paisagem

Caspar David Friedrich, Amanhecer nas montanhas, 1822-23.
"Pode soar impertinente, mas diria que aquilo que pertence à cultura alemã eu trouxe comigo para a América. O que não podia trazer e por essa razão sempre vou de bom grado à Alemanha, por pouco tempo, é justamente a paisagem."
Herbert Marcuse. "Herbert Marcuse -- vida e obra," in: LOUREIRO, Isabel (org.) A grande recusa hoje. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 14.
terça-feira, junho 09, 2009
O sonho de José Saramago
Um sonho
by José Saramago
Nunca vi a pessoa em questão, nunca lhe falei, não tem nem teve jamais lugar no círculo dos meus interesses, quer imediatos quer distantes, e para que tudo fique dito em meia dúzia de palavras, considerando os anos que no passado levei ouvindo ou lendo este nome, nem sequer sei se está vivo. Refiro-me a um editor português, Domingos Barreira, que na noite passada veio visitar-me no meu sono. Aliás, não cheguei a vê-lo e, se o visse, não saberia que cara lhe haveria de pôr. O que ele fez foi enviar-me uma secretária com o recado de que gostaria de encontrar-se comigo para conversarmos sobre coisas passadas. Que coisas passadas fossem elas, ainda estou para sabê-lo, porque, apesar do encontro ter ficado aprazado para o próximo fim-de-semana, não se falou de local. E, como se isso fosse pouco, acordei, e, quando acordei, a secretária não estava ali.

Jean Auguste Dominique Ingres, O sonho de Ossian, 1813.
Agora, que venham os doutores da academia explicar-me este sonho sem causa aparente nem motivo que se perceba. Salvo se se quiser aceitar uma ideia minha, antes lhe chamaria convicção, a de que a doença que há um ano e tal esteve a ponto de levar-me deu uma volta à minha cabeça, desarrumando as memórias e voltando a arrumá-las por outra ordem e poderá ter sido, também ela, a responsável por este insólito sonho. Infelizmente, ficará sem resposta a pergunta: “Porquê?” Paciência, não se pode ter tudo e os doutores da academia têm com certeza mais que fazer que ler esta página.
Para ter acesso ao blog de José Saramago, onde este texto foi publicado em 20/05/2009, clique no título deste post.
by José Saramago
Nunca vi a pessoa em questão, nunca lhe falei, não tem nem teve jamais lugar no círculo dos meus interesses, quer imediatos quer distantes, e para que tudo fique dito em meia dúzia de palavras, considerando os anos que no passado levei ouvindo ou lendo este nome, nem sequer sei se está vivo. Refiro-me a um editor português, Domingos Barreira, que na noite passada veio visitar-me no meu sono. Aliás, não cheguei a vê-lo e, se o visse, não saberia que cara lhe haveria de pôr. O que ele fez foi enviar-me uma secretária com o recado de que gostaria de encontrar-se comigo para conversarmos sobre coisas passadas. Que coisas passadas fossem elas, ainda estou para sabê-lo, porque, apesar do encontro ter ficado aprazado para o próximo fim-de-semana, não se falou de local. E, como se isso fosse pouco, acordei, e, quando acordei, a secretária não estava ali.

Jean Auguste Dominique Ingres, O sonho de Ossian, 1813.
Agora, que venham os doutores da academia explicar-me este sonho sem causa aparente nem motivo que se perceba. Salvo se se quiser aceitar uma ideia minha, antes lhe chamaria convicção, a de que a doença que há um ano e tal esteve a ponto de levar-me deu uma volta à minha cabeça, desarrumando as memórias e voltando a arrumá-las por outra ordem e poderá ter sido, também ela, a responsável por este insólito sonho. Infelizmente, ficará sem resposta a pergunta: “Porquê?” Paciência, não se pode ter tudo e os doutores da academia têm com certeza mais que fazer que ler esta página.
Para ter acesso ao blog de José Saramago, onde este texto foi publicado em 20/05/2009, clique no título deste post.
quarta-feira, maio 27, 2009
Os Don Juan x os Werther
Assinar:
Postagens (Atom)

