Meditações de Fernando Pessoa
Aléxia Cruz Bretas
Do ponto de vista epistemológico-crítico, o Livro do Desassossego pode ser lido como uma espécie de contraponto às seminais Meditações cartesianas -- que, como se sabe, marcam o advento do "eu pensante" como matriz da subjetividade moderna, assinalando, pois, o primado da filosofia da consciência no ocidente.
Pelo viés de uma prosa poética saturada de especulações metafísicas, pode-se afirmar que Fernando Pessoa revisita certas questões gnoseológicas, estéticas e até éticas fundamentais à tradição filosófica, valendo-se, para tanto, de um profícuo choque produtivo entre os planos da criação artística e do exercício intelectual propriamente dito.
Atento às insolúveis heterogeneidades entre ambos, é bastante assertivo o comentário do próprio escritor ao definir-se como um "poeta impulsionado pela filosofia" em vez de "um filósofo dotado de faculdades poéticas".
Seja como for, em grande parte atribuída ao " semi-heterônimo" Bernardo Soares e concebida sob a forma de uma paradoxal "autobiografia sem fatos", esta fragmentária compilação de 481 aforismos e "grandes trechos" escritos entre 1913 e 1935 representa, sem dúvida, o trabalho mais poeticamente filosófico de seu autor.
Em meio a máximas lapidares e metódicos "apontamentos espirituais", este "não-livro" inclassificável, permanentemente em processo, postula, contra Descartes, que "a inconsciência é o fundamento da vida", propondo, ao fim e ao cabo, uma desinteressada "contemplação estética" da existência na qual o sonho desempenha um papel da maior importância: o de ponto arquimediano de uma ainda embrionária Filosofia do Desassossego.
Este trecho é parte de um artigo ainda inédito sobre o Livro do Desassossego de Fernando Pessoa.
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